Definição

A hipnose é um estado de consciência induzido através da distracção da mente consciente, a qual se encontra absorvida por um estímulo qualquer (uma música, palavras do terapeuta, movimentos oculares, etc.). Enquanto se direcciona a atenção da pessoa para esse estímulo, a mente inconsciente permite ser trabalhada e guiada através de sugestões, metáforas, imagens, sentimentos.

Estados leves de transe são experimentados por todas as pessoas, uma ou mais vezes, durante o dia. Por exemplo, a simples visualização de um filme, a absorção da pessoa no enredo, esquecendo o carácter ficcional da situação e emocionando-se, até, com a história é uma das muitas situações de transe na nossa vida quotidiana.

A hipnose realizada por um hipnotizador ou por um hipnoterapeuta (designações diferentes para uma pessoa ligada ao espectáculo e à saúde, respectivamente) baseia-se neste fenómeno natural, para criar, artificialmente, um transe, em que a pessoa parece experienciar um distanciamento dos estímulos conscientes e uma distorção do tempo (sensação subjectiva do tempo de quem esteve sob hipnose que é desfasada da objectividade cronológica), de modo geral.

Áreas de Intervenção

A hipnose pode ser extremamente eficaz para lidar com diversas patologias:

  • Fobias
  • Ataque de pânico
  • Ansiedade
  • Depressão
  • Transtornos alimentares
  • Parto e gravidez
  • Problemas aditivos (tabaco, álcool, jogo)
  • Dor
  • Melhorar performances (desportivas, académicas, profissionais, etc.)
  • Problemas dermatológicos
  • Perturbação Obsessivo-Compulsiva
  • Perturbações Psico-sexuais (vaginismo, infertilidade psicogénica, etc.)
  • Perturbações de infância (enurese, encoprese, ansiedade, etc.)
  • E ainda utilizada como relaxamento, anestesia (em cirurgias, tratamentos dentários, etc.), regressão

Auto-hipnose

“Toda a hipnose é auto-hipnose”

Se a hipnose é um estado natural humano perfeitamente atingível por nós próprios, a maior parte do tempo sem saber que estamos num estado de transe, porquê não a utilizar a nosso favor? Por isso, quando me refiro a praticar a auto-hipnose menciono todas as sugestões positivas e benéficas que podemos dar-nos, a nós próprios, durante o transe.

FAQS

A hipnose é um estado de consciência modificada que se manifesta de modo diferente de pessoa para pessoa.

Por outro lado, a mesma pessoa pode reagir de modo diferente de sessão para sessão.

Contudo, regularmente, assiste-se a um adormecimento do corpo acompanhado por um grande relaxamento enquanto que a mente segue determinadas sugestões do hipnoterapeuta ou auto-sugestões.

Paralelamente à absorção da atenção nessas ideias/imagens poderá manter a noção do seu ambiente exterior.

Algumas pessoas poderão vivenciar essa experiência mais profundamente, ignorando com facilidade os estímulos externos, outras, estarão mais atentas à sua realidade externa.

Alguns fenómenos podem ocorrer como, a amnésia parcial ou total (não recordar alguns episódios ou todo o transe), a distorção do tempo (sentir que o tempo passou muito depressa ou devagar em relação ao tempo cronológico) ou a regressão espontânea (relembrar situações do passado). Contudo, e por serem fenómenos naturais vivenciados num contexto clínico e protegido, não devem ser recebidos com receio.

Desde logo, é preciso evidenciar que a hipnose não é dormir. O corpo poderá atingir um estado de prostração e de inacção semelhante a alguns estados do sono, podendo-se observar um relaxamento muscular, uma diminuição da actividade cardíaca e respiratória, etc. Ainda assim, nem toda a hipnose implica um relaxamento do corpo. Como se explicou antes, a hipnose está relacionada com a absorção da atenção por um estímulo externo ou interno. O relaxamento poderia ser esse estímulo interno, mas outros estímulos podem ser utilizados, um deles sendo a própria conversação.

Não obstante a existência ou não deste relaxamento corporal, a mente está bem activa. Não será igual ao estado de vigília (desperto) mas cerebralmente estamos a processar informação, alguma da qual esquecida e pouco acessível conscientemente.

Esta é uma expressão vulgarmente utilizada para questionar sobre a profundidade do transe. O estar “apagado” está muitas vezes relacionado com um transe profundo no qual a pessoa distancia-se total ou quase totalmente da realidade externa, vivenciando o transe de modo bastante intenso. De facto, este estado de transe é possível, ainda que seja mais invulgarmente observado, dependendo das características da pessoa e do contexto. O mais comum é a pessoa experienciar um nível leve ou médio de transe, no qual o contacto com a realidade exterior é sempre ou quase sempre mantido.

Podem-se utilizar instrumentos vários como o pêndulo, ou outros mais naturais como o próprio corpo ou até não utilizar instrumento nenhum, pedindo simplesmente para a pessoa se concentrar em determinada situação e/ou fechar os olhos. Mais uma vez retomo a ideia de que o importante é direccionar e focar a atenção da pessoa para determinado estímulo.

Em contexto clínico, paciente e terapeuta trabalham no mesmo sentido e de forma colaborativa, com o intuito de procurar ajudar o primeiro. Os conhecimentos do hipnoterapeuta só podem ser postos em prática com o aval do paciente. Este poderá co-conduzir a experiência de transe com o paciente, até ao limite imposto pelo próprio paciente. De modo geral, o processo terapêutico e os resultados obtidos dependem, sobretudo, da vontade e do investimento da pessoa que procura ajuda.

“Toda a hipnose é auto-hipnose”. Com esta definição em mente diria que sim, todos somos capazes de ser hipnotizados. Porém, há pessoas mais sugestionáveis e que mais facilmente se hipnotizam do que outras. Convém ressalvar que determinados obstáculos como o receio e a ansiedade, o pouco esclarecimento e a presença de crenças erróneas sobre a hipnose ou as expectativas desmesuradas, promovem, por vezes, mais dificuldade em desfrutar do transe.

Sim, sem dúvida. As crianças mantêm esse estado hipnoidal várias vezes ao dia, de forma, por vezes, mais intensa do que os adultos. Quem nunca viu uma criança completamente “colada” ao televisor, sem reagir a qualquer estímulo exterior?

Há diversas posições sobre esta questão. Acredito na manipulação conscientemente e inconsciente das pessoas de modo a fazerem coisas contra a sua vontade e valores. Contudo, volto a relevar a questão do contexto e da formação dos terapeutas que estão implicados na terapia.

É possível que determinadas memórias e assuntos de vida sejam “remexidos” novamente, o que não implica que sejam verbalizados. Porém, é, igualmente, passível que a pessoa os verbalize durante o transe. Tal não é, por vezes, controlável e terá os seus benefícios se for bem recebido pelo terapeuta e pelo próprio paciente, que em equipa poderão trabalhar nesse novo material. Sobretudo, é necessário não esquecer que existe um código de ética profissional para os profissionais de saúde. Relativamente aos psicólogos existe confidencialidade dos assuntos partilhados, com algumas excepções nos casos em que haja tentativa de molestar o próprio ou outros. Informe-se sobre a conduta ética do seu terapeuta.

Não. Pode haver alguma dificuldade em despertar ou demorar um pouco mais tempo. Eventualmente, pode passar-se para outro estado, o do sono. Mas em qualquer destas situações, a pessoa desperta sempre.

Não, e esta é uma ideia que comummente está presente na mente das pessoas que receiam a hipnose. A hipnose pode envolver regressão a memórias recentes e/ou mais antigas, mas tal pode não acontecer. Acresce que fazer hipnose não é fazer regressão e, como tal, não há forçosamente uma condução do transe nesse sentido. Espontaneamente, a pessoa pode recordar aspectos passados e voltar até a vivenciá-los, mas não é regra e, sempre que necessário, tal processo pode ser interrompido.

Saliento, ainda, que a memória é um processo de assimilação da informação que sofre distorções no momento de armazenagem. Assim, sejam elas recordadas consciente ou inconscientemente, trazem consigo reformulações do que aconteceu, “peças” que não estavam exactamente presentes no acontecimento original. Se formos mais longe, a teoria do Construcionismo Social postula a negação da existência de factos reais, mas concebe a realidade como uma construção única de cada um. Ou seja, as nossas memórias seriam sempre um armazenamento pessoal dos acontecimentos vividos.

Acrescento ainda a ideia de que poderemos reconstruir de tal forma determinado acontecimento que a memória resulte numa aproximação distante da realidade ou mesmo numa “falsa memória”. Por isso, e não obstante a realização de uma regressão, é preciso cautela no reconhecimento das memórias recolhidas neste processo.

A regressão não implica revivificação dessa memória. Por outras palavras, recordar com detalhe determinada situação não implica que a pessoa viva de novo esse acontecimento. Por outro lado, é possível esse revivenciar de situações passadas sentindo-se com as características, emoções, pensamentos da altura.

Sim, é possível, desde que tenha sentido para a pessoa que o deseje fazer. Tal não implica que o terapeuta partilhe das mesmas convicções, ou seja, que acredite em vidas passadas, algo que não afectará o processo, desde que haja vontade e sabedoria para conduzir esse caminho. Essa regressão pode ter sentido para a pessoa que a pede e é com esse significado que se deve trabalhar.

Outra questão com hipótese de várias respostas. Pessoalmente, trato a hipnose como uma técnica terapêutica, ou seja, recorro a esta técnica para acelerar determinado processo terapêutico. Como tal, a minha aplicação da hipnose não é constante mas vai depender da avaliação que fizer do caso e do momento emocional e motivacional do paciente.

De uma maneira mais lata e mais moderna, considera-se hipnose qualquer processo de interacção em que uma pessoa influencia outra. Deste modo, poderemos dizer que está presente em qualquer processo terapêutico.

Ainda que seja possível induzir qualquer pessoa ao transe hipnótico, os tratamentos, claramente, não são eficazes para todos. É importante relembrar que a hipnose não é a panaceia dos tratamentos de saúde mental.

Dificilmente. Poderá resolver/atenuar um sintoma de modo breve mas um problema é, geralmente, algo que necessita de maior reformulação e trabalho. Determinados mestres desta área, como Milton Erickson, relatam histórias maravilhosas de curas quase “milagrosas”, mas sublinho a sua arte de mestria.

Qualquer terapia pode ser “perigosa” se for mal conduzida. Tal requer mal preparação ou dificuldade do terapeuta em lidar com certos problemas. A hipnose em si, tal como as outras terapias, não são prejudiciais.